O Sol da Meia-Noite


(O sol da meia noite. Google Images)

É como se metade ficasse
e fosse isso
por horas
e horas a fio
nem bem vazio
um toque de falta
depois de entrelaçadas almas
nem bem um frio...
um clima de inverno
de um dia cinzento
que espera pela noite
para ver de novo o sol

Líquida II


Estou cheia de mim
Preciso transbordar
Não...
Já não tenho mais verdades pra desconstruir
e não é que era um passatempo?!
cruzar o dia quebrando pedrinhas de certezas...
sobrou apenas uma caixa com peças de montar
(aquelas do tipo 'pequeno engenheiro')
portas, janelas, pontes e telhadinhos
verdes, vermelhos, cor de madeira
todos eu!
preciso transbordar para me re-tomar!
Acho que já li em algum lugar que ando líquida.

Profissão Febre - Paulo Leminski

Quando chove,
Eu chovo,
Faz sol,
Eu faço,
De noite,
Anoiteço,
Tem Deus,
Eu rezo,
Não tem,
Esqueço,
Chove de novo,
De novo, chovo,
Assobio no vento,
Daqui me vejo,
Lá vou eu,
Gesto no movimento.

Estados físicos


Estou líquida
e com sede de mim
preparo tudo pra me olhar
botas, casaco, gorro e óculos escuros
viro a lanterna e aponto ao fundo
engulo as doses de luz
como necessária companheira
esqueço o frio lá fora
a luz queima os papeis perdidos
nas velhas gavetas de mim
estou líquida e com sede
e quando apagar o fogo
e expulsar a fumaça
recolho o que sobrou:
o sólido que controi
um pouco mais
a minha simples realidade

O que

O que poderia ter sido percebido
do lado de lá da cama de pregos
algo que se incendeia e não digo
ou o silêncio que esperneia
a fundo, no buraco que não acho
em suas dimensões imensuráveis

bato pelo chão em retirada
enquanto a velha navalha
capina as verdades
na tentativa
de trazer à tona o que se passa
do outro lado do colchão de pregos!

O bandido é choro meigo...
o que mata
é tentar descobrí-lo sem que exista
inventar-se em solo ruim
descobrir-se prisioneira
auto-prisioneira das impossibilidades
das faltas, das mortes,
dos ex-desejos!

O que mata é o não viver-se.